30 de agosto de 2010

Maria Farrar de Bertold Brecht



Maria Farrar, nascida em abril, sem sinais particulares, menor de idade, orfã, raquítica, ao que parece matou um menino da maneira que se segue, sentindo-se sem culpa. Afirma que grávida de dois meses no porão da casa de uma dona tentou abortar com duas injeções dolorosas, diz ela, mas sem resultado. E bebeu pimenta em pó com álcool, mas o efeito foi apenas de purgante. Mas vós, por favor, não deveis vos indignar. Toda criatura precisa da ajuda dos outros.


Seu ventre inchara, agora a olhos vistos e ela própria, criança, ainda crescia. E lhe veio a tal tonteira no meio do ofício das matinas e suou também de angústia aos pés do altar. Mas conservou em segredo o estado em que se achava até que as dores do parto lhe chegaram. Então, tinha acontecido também a ela, assim feiosa, cair em tentação. Mas vós, por favor, não vos indigneis. Toda criatura precisa da ajuda dos outros.

Naquele dia, disse, logo pela manhã, ao lavar as escadas sentiu uma pontada como se fossem alfinetadas na barriga. Mas ainda consegue ocultar sua moléstia e o dia inteirinho, estendendo paninhos, buscava solução. Depois lhe vem à mente que tem que dar à luz e logo sente um aperto no coração. Chegou em casa tarde. Mas vós, por favor, não vos indigneis. Toda criatura precisa da ajuda dos outros.

Chamaram-na enquanto ainda dormia. Tinha caído neve e havia que varrê-la, às onze terminou. Um dia bem comprido. Somente à noite pode parir em paz. E deu à luz, pelo que disse, a um filho mas ela não era como as outras mães. Mas vós, por favor, não vos indigneis. Toda criatura precisa da ajuda dos outros.

Com as últimas forças, ela disse, prosseguindo, dado que no seu quarto o frio era mortal,se arrastou até a privada, e ali, quando não mais se lembra, pariu como pôde quase ao amanhecer. Narra que a esta altura estava transtornadíssima, e meio endurecida e que o garoto, o segurava a custo pois que nevava dentro da latrina. Entre o quarto e a privada o menino prorrompeu em pratos e isso a perturbou de tal maneira, ela disse, que se pôs a socá-lo às cegas, tanto, sem cessar, até o fim da noite. E de manhã o escondeu então no lavatório. Mas vós, por favor, não deveis vos indignar, toda criatura precisa da ajuda dos outros.

Maria Farrar, nascida em abril, morta no cárcere de Moissen, menina-mãe condenada, quer mostrar a todos o quanto somos frágeis. Vós que parís em leito confortável e chamais bendido vosso ventre inchado, não deveis execrar os fracos e desamparados. Por obséquio, pois, não vos indigneis. Toda criatura precisa da ajuda dos outros.


Bertold Brecht

24 de agosto de 2010

A Autoridade


Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na proa e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam. Os homens montavam as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam as peles de abrigo. Assim era a vida entre os índios onas e yaganes,na Terra do Fogo,até que um dia os homens mataram todas as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres tinham inventado para aterrorizá-los.
Somente as meninas recém-nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas.

Eduardo Galeano.

E se nascer homossexual?

TPM

A posição da Igreja Católica em relação ao aborto



Diário de Bitita

Quando fui trabalhar na casa do farmacêutico Manoel Magalhães, todos estavam alegres por hospedarem seu sobrinho padre Geraldo. Consideravam-se importantes por terem um padre na família. Ele tinha acabado de chegar de Roma, ia rezar uma missa e todo mundo estavam convidado.

Eu não conhecia a casa. Só conhecia a cozinha e o quintal. Quando começou o reboliço lá dentro, eu só ouvia a palavra: “Sumiu! Sumiu! Só pode ter sido ela”. Eu estava estendendo a roupa quando vi chegarem dois soldados.
-Vamos, vamos, vagabunda! Ladra! Nojenta!
Assustei:
- O que aconteceu?
- Ainda pergunta, cara-de-pau! Você roubou dez mil-réis do padre Geraldo.
Era dez horas da manhã. Logo a notícia circulou.
- A Bitita roubou CEM MIL-RÉIS do padre Geraldo.
- Credo! Ela vai pro inferno!
- Vai mesmo, mas antes de ir pro inferno vai pra cadeia.
Foram avisar minha mãe. É a única pessoa que está sempre presente nas alegrias ou desgraças. Doeu quando ela perguntou:
- Você roubou Bitita?
- Não senhora! Eu nunca vi dez mil-reis.
Meu desejo era conhecer uma cédula de dez mil, duzentos, quinhentos e quem sabe até de um conto de reis. Estas nunca tinha visto. Só conhecia as de cinqüenta , vinte, dez, cinco, dois e um mil-reis.
Fui presa por dois soldados e um sargento. Pensei que eles iam me obrigar a percorrer as ruas com as crianças gritando em coro: “- A Bitita roubou dez mil-reis do padre! A Bitita roubou dez mil-reis do padre!”
Naquele dia compreendi que todo negro deveria esperar por isso. Me levaram pra delegacia. Quando o soldado levantou a mão pra me bater o telefone tocou. Era o padre Geraldo avisando que tinha encontrado o dinheiro, que ele mesmo havia escondido num maço de cigarros. Ele não pediu perdão, só mandou a polícia me soltar pra eu voltar pro trabalho.

(Carolina Maria de Jesus, Diário de Bitita)

6 de agosto de 2010

Aborto, a doutrinação do sistema de saúde

Estado Laico e a legalização do aborto

A Clandestinidade

Aborto, cala boca já morreu quem manda no meu corpo sou eu!

Oração de Lilith


Em pé, de frente ao espelho, relembre os momento em que você sentiu-se obrigada a fazer o que não queria. Descubra a parte do teu corpo onde o recentimento ou a vergonha se instalou. Então, em voz alta, repita frases que negam a opressão: Não quero! Não dou! Não admito! Não deixo! Não faço! Faça movimentos com as mãos, como se estivesse arrancando do seu corpo a lembrança. Quando sentir que basta, acalme sua mente e seu coração. Respire fundo e se olhe no espelho, diga quem você, o que você deseja e merece. Reafirme seu próprio ser!

25 de janeiro de 2010

Violência Contra Mulher


O conceito de violência contra a mulher é bastante amplo: inclui "qualquer ato de violência baseado no gênero, qualquer ato que resulte em dano ou sofrimento de natureza física, sexual ou psicológica — inclusive ameaças, coerção ou privação arbitrária de liberdade —, quer ocorram na vida pública ou privada".
A violência contra a mulher engloba diversas formas de agressão, incluindo a violência psicológica, e não apenas a física e a sexual.

EXISTE A VIOLÊNCIA SIMBÔLICA, QUE TRANSFORMA AS MULHERES EM OBJETOS

E A VIOLÊNCIA FÍSICA


Situações que caracterizam violência contra a mulher:

1. Ameaça

Se alguém, por palavras, gestos ou por escrito, amedrontou você — prometendo fazer um mal injusto e grave —, você foi vítima de um crime de ameaça.

Em outras palavras: se alguém ameaçou causar algum mal a você (como estupro, morte, espancamento etc.), pode denunciar. É muito importante frisar essa informação, porque muitas pessoas acreditam que isso não é crime. Ameaça é crime!


2. Atentado violento ao pudor

Se alguém a obrigou a ter contato íntimo contra sua vontade, sem que tenha ocorrido uma relação sexual completa, você foi vítima de um crime de atentado violento ao pudor.

Essa também é importante destacar: aquele homem que fica se "esfregando" em uma mulher no ônibus lotado (desculpem, gente) é um criminoso!


3. Difamação

Se alguém falou contra sua honra, na presença de uma ou mais pessoas, você foi vítima de um crime de difamação.


4. Estupro

Se alguém a obrigou a ter relações sexuais contra sua vontade, você foi vítima do crime de estupro.

Mesmo que seja seu namorado, amante ou até seu marido: foi contra a sua vontade? É estupro!

Se a vítima for menor de 14 anos ou pessoa com deficiência mental reconhecida, caracteriza-se também o crime de estupro, mesmo que não haja sinais visíveis de violência.

Estupro é caracterizado pela relação sexual forçada, com penetração vaginal ou outros atos, praticados com o uso da força, ameaça ou intimidação.


5. Injúria

Se alguém a ofendeu, mesmo que não tenha sido na frente de outra pessoa, você foi vítima do crime de injúria.

Além disso, se você sofreu agressões físicas sem deixar marcas aparentes ou foi expulsa do lar conjugal, também foi vítima desse crime.


6. Lesão corporal

Se alguém lhe deu socos, bofetões, pontapés ou bateu usando objetos que a machucaram ou prejudicaram sua saúde, você foi vítima do crime de lesão corporal.


Em muitas culturas, a violência contra a mulher é tolerada ou justificada, e normas sociais ainda sugerem que a mulher é a culpada pela violência que sofre, simplesmente por ser mulher.


Essas atitudes podem estar presentes até mesmo entre profissionais da saúde e da segurança pública, o que resulta, muitas vezes, em tratamento inadequado ou desrespeitoso — especialmente em casos de violência sexual — quando a vítima busca atendimento médico e psicológico.


É importante lembrar que os atos de violência contra a mulher são mais frequentes do que se imagina e são passíveis de punição perante a lei.

Mas, infelizmente, nem sempre as mulheres têm coragem de denunciar a violência da qual foram vítimas.




Se ele tivesse nascido mulher



Debatendo as diferenças biológicas, psicológicas e culturais entre o feminino e o masculino, quem nunca teve que ouvir da boca de algum machista, orgulhoso de seu gênero: "Por que você acha que todos os grandes pensadores, gênios e cientistas são homens?"

Em certa altura do debate, as teorias evolucionistas e o darwinismo entram em cena para justificar as desigualdades entre homens e mulheres. Enquanto todos os atributos biológicos favorecem a posição de dominador do homem, os "atributos" biológicos das mulheres apenas reforçam os papéis subalternos.
Realmente, mulheres e homens são diferentes, mas essas diferenças não justificam as desigualdades sociais.

Com a palavra, um homem solidário à condição feminina e atento às desigualdades socialmente constituídas. É bom quando podemos contar com os homens na luta diária contra o machismo.

Se Ele Tivesse Nascido Mulher
Dos dezesseis irmãos de Benjamin Franklin, Jane é a que mais se parece com ele em talento e força de vontade. Mas na idade em que Benjamin saiu de casa para abrir seu próprio caminho, Jane casou-se com um seleiro pobre, que a aceitou sem dote, e dez meses depois deu à luz seu primeiro filho. Desde então, durante um quarto de século, Jane teve um filho a cada dois anos. Algumas crianças morreram, e cada morte abriu-lhe um talho no peito. As que viveram exigiram comida, abrigo, instrução e consolo. Jane passou noites a fio ninando os que choravam, lavou montanhas de roupa, banhou montões de crianças, correu do mercado à cozinha, esfregou torres de pratos, ensinou abecedários e ofícios, trabalhou ombro a ombro com o marido na oficina e atendeu os hóspedes cujo aluguel ajudava a encher a panela.
Jane foi esposa devota e viúva exemplar; e quando os filhos já estavam crescidos, encarregou-se dos próprios pais, doentes, de suas filhas solteironas e de seus netos desamparados. Jane jamais conheceu o prazer de se deixar flutuar em um lago, levada a deriva pelo fio de um papagaio, como costumava fazer Benjamin, apesar da idade. Jane nunca teve tempo de pensar, nem se permitiu duvidar. Benjamin continua sendo um amante fervoroso, mas Jane ignora que o sexo possa produzir outra coisa além de filhos. Benjamin, fundador de uma nação de inventores, é um grande homem de todos os tempos. Jane é uma mulher do seu tempo, igual a quase todas as mulheres de todos os tempos, que cumpriu o seu dever nesta terra e expiou parte de sua culpa na maldição bíblica.
Ela fez o possível para não ficar louca e buscou, em vão, um pouco de silêncio. Seu caso não despertará o interesse dos historiadores.

Eduardo Galeano

4 de janeiro de 2007

campanha contra exploração e tráfico de mulheres

O desserviço de certas campanhas contra Aids

Ao longo das últimas quatro décadas, campanhas de prevenção ao HIV/AIDS ocuparam um espaço central nas estratégias de saúde pública. Contudo, muitas dessas campanhas, em vez de informar e acolher, acabaram por reproduzir estigmas, alimentar o medo e reforçar preconceitos — fazendo um verdadeiro desserviço à tomada de consciência sobre a doença.

Nas décadas de 1980 e 1990, marcadas pelo desconhecimento e pelo pânico em relação à AIDS, predominava uma abordagem que associava o vírus à morte iminente, à promiscuidade e à marginalidade. Imagens de corpos esqueléticos, seringas, monstros simbólicos ou túmulos tornaram-se ícones da comunicação preventiva. O que se pretendia como alerta, muitas vezes se converteu em terror midiático, criando um ambiente de medo que afastava as pessoas da testagem, do tratamento e, sobretudo, do diálogo franco sobre sexualidade e cuidado.

Campanhas como a campanha de prevenção contra a AIDS da organização francesa AIDES, que representa a pessoa com HIV como um escorpião monstruoso — que envenena as pessoas. Além de desumanizar pessoas soropositivo, tornando-os monstros perigosos,  esse tipo de campanha  reforça o medo, a repulsa e o estigma e alimenta preconceitos em vez de promover informação.

Associar sexo com terror ou punição, pois a imagem reforça uma visão moralista e punitiva da sexualidade, especialmente da sexualidade masculina (ou possivelmente homoafetiva, dependendo da leitura). Ao transformar o ato sexual em um encontro com uma criatura monstruosa, a campanha usa o medo como ferramenta, o que pode ser contraproducente. O Foco exclusivo no medo, e não na informação, baseadas em terror gráfico tendem a ser menos eficazes do que aquelas que educam com clareza e base científica

26 de dezembro de 2006

EU ETIQUETA






Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
Seja negar a minha
Identidade. eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio.
Ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anuncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
e ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?

(Carlos Drummond de Andrade, 1984)

19 de novembro de 2006

Colonizando corpos

Como Foucault costumava dizer: “O poder da sociedade moderna age diretamente sobre os corpos, tornando-os dóceis e disciplinados.” Considerando os “anos dourados” pelos quais passa a domesticidade feminina, é possível afirmar que a preocupação em patrocinar certos estereótipos de mulher é reveladora, pois neles operam mecanismos de controle e autocontrole do comportamento e da sexualidade.

A imagem feminina dócil e disciplinada é uma ferramenta de poder: serve para subjugar ilusões e aspirações, e abonar os valores da cultura hegemônica.

Coitadas das que não ficarão tão lindas quanto Gisele Bündchen, enfiando o dedo na garganta para vomitar; das que se mutilam, se entregam ao definhamento, ou simplesmente usam o mesmo creme que ela usa na propaganda, esperando obter alívio da opressão estética — como se autoestima e amor-próprio viessem em potes plásticos.

Quantas mulheres sonham um dia ser como as top models: desejadas e reverenciadas pelas “cortes” masculinas, e conquistar um lugar no mundo. Mesmo que tornar-se aquilo que os homens mais apreciam signifique preencher o sinistro sarcófago da anorexia, ainda assim, muitas mulheres, cotidianamente, se empenham em satisfazer as fantasias e os ideais machistas.

A princípio, as maiores e melhores oportunidades serão creditadas às belas, às magras, às bem-vestidas e às sedutoras. Isso é tão forte na mente das pessoas que, aparentemente, todas as escolhas e fatos da vida feminina convergem para um aprisionamento nessa “imagem tirânica”.

É o império da Estética da Limitação — e da violência contra o corpo. Da violência que coloniza mentes, corações e territórios.

23 de setembro de 2006

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...

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SELF SERVICE

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Os homens  preferem as loiras,
as pernas, as bundas
as ricas, as putas
as filhas das santas
letradas, peitudas
alunas da puc,
solteiras, taradas
mulheres pudicas
peludas, escravas,
as boas de cama,
mucamas, mineiras,
as freiras da Itália,
escocesas, peladas
meninas de estrada,
as bem mal-amadas,
aquelas que sempre dizem te amo
e mais nada...
licença poética

Lugar de mulher é...

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Solteira de aceso facho
precisa logo de macho;
se é nervosinha a casada
só pode ser mal transada;
viúva cheia de enfado
tem saudade do finado;
puta metida a valente
quer cafetão que a esquente.
Mulher não vive sem homem.
Mulher não vive sem homem.
A prova mais certa disto
é que até as castas freiras
são as esposas... de Cristo.
Tal regra é tão extremista
que não contém exceção:
quem sai dela é feminista,
fria, velha ou sapatão"
E pelas bagagens dos preconceitos adquiridos
que chega-se a tanta conclusão.
licença poética

28 de agosto de 2006

OLHOS CANIBAIS SÓ CONSOMEM IMAGENS CRUAS



Foram-se os tempos em que os programas de TV de sábado à tarde eram dedicados aos shows enfadonhos.
“Após o comercial, os telespectadores poderão assistir a como é feita uma lipo”, anuncia a apresentadora bonitona. Logo depois, o procedimento cirúrgico é transmitido ao vivo e em cores cruas — sem edição ou censura de imagens.

Já de saída, caberiam aqui milhares de comentários sobre Ética Médica, outros milhares sobre a banalidade e a mediocridade dos programas de TV. Mas o episódio todo merece ser comentado.

“Hoje em dia, graças à cirurgia plástica, qualquer mulher pode ficar satisfeita consigo mesma”, diz o sorridente doutor, enquanto se prepara para “dilapidar” uma mulher. Ao mesmo tempo em que realiza a cirurgia, o médico fala à repórter sobre os “benefícios” de se fazer uma plástica para reduzir os “excessos”.

Muitíssimo mais impressionante do que as palavras levianas do “doutor” era sua performance: parecia um toreador, enfiando suas espadas no lombo del toro. A destreza com o bisturi até poderia ser considerada algo profissional— não fosse o exibicionismo macabro. Era de arrepiar quando ele enfiava a agulha cirúrgica (un espetón) nas costas da paciente (vítima), despedaçando e sugando a gordura dela.

A apresentadora tentava amenizar o mal-estar e a falta de decoro, defendendo que a apresentação de cirurgias plásticas na TV era algo “educativo”.

A paciente — uma jovem vítima, magrela e sorridente — assistia (junto com milhões de pessoas) à própria carne, inerte e servil, ser esfaqueada em prol do clímax do espetáculo. Sempre sorrindo, satisfeitíssima, ela também não ficava atrás no quesito exibicionismo. Afinal de contas, seu corpo era o centro daquele show e a razão dos pontos altíssimos no IBOPE.

A cirurgia dolorosa e banal termina, e a repórter pergunta à paciente se doeu. Com a mesma simpatia alienada, ela responde: “Não doeu nada, foi até divertido”.

Divertido?
Realmente, tem muita gente que se diverte vendo barbaridades, acha graça, dá boas gargalhadas com bizarrices.
Mas fala sério: numa tourada, quem menos se diverte é o touro — assistindo ao próprio lombo ser perfurado .

Resumindo: eram cenas que extrapolavam os limites do bom senso estético e passavam a anos-luz de qualquer senso ético. Um show sinistro protagonizado por um médico sem decoro, um corpo inerte e submisso, um programa de TV inconsequente e multidões de espectadores (voyeurs), apreciando com seus “olhos canibais” a gastronomia daquelas imagens.

Na TV é assim:

  • A medicina — a ciência que discute o limiar entre a vida e a morte — é convertida em “entretenimento escatológico”;
  • O corpo feminino é convertido num pedaço de carne a ser consumido;
  • E o escrúpulo é convertido em algo inexistente, quando o assunto é prender a atenção do telespectador médio com imagens de brutalidade.





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27 de agosto de 2006

Dóceis e úteis

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A máquina

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EUSOU O MEU CORPO,
EU PERTENÇO A ELE,
ELE PERTENCE AOS HOMENS

Muitas vezes essa frase pode soar estranha ou até mesmo óbvia, tudo depende do nível de consciência que seus olhos possam suportar. O fato de muitas mulheres se reduzirem à suas bundas ou peitos não é muito raro numa sociedade onde as pessoas não são. Elas possuem. Se um homem interessante se mede pelo valor de seu carro (e de seu celular) e uma mulher pelo tanto de sexualidade que transpira, quanto mais perto dos padrões de beleza veiculados nas revistas e novelas mais valor ela vai poder agregar ao veículo de seu namorado. Para muitos, se não ficasse esteticamente estranho, poderiam até se cortar as cabeças femininas, questão de bom senso. Tudo o que não tem utilidade é supérfluo, tudo que é supérfluo é coisa de mulher. Coisa de mulher é gastar o dinheiro que os homens ganham, eles ganham porque pensam. Lógica capitalista. Lógica dos que sabem pensar.
Nos tempos em que o machismo se generaliza e se torna totalizante, os olhos totalizam a consciência das pessoas, o conceito do estético aprisiona os seres humanos e eles não conseguem pensar para além da forma. O desejo manifesto por um automóvel é igual ao que se tem por uma mulher. O tesão que sentimos por uma bunda ou pelo design de uma traseira de carro é praticamente o mesmo. Eles irão servir-te da mesma forma. Irão te valorizar no mercado se forem bonitas e de último modelo. O machismo anula as diferenças entre um automóvel e uma mulher. Entre o corpo e cérebro feminino. Entre as roupas que uma mulher pode comprar e sua capacidade de pensar. Entre um relacionamento amoroso e um financiamento de um bem.

19 de agosto de 2006

Trabalho doméstico infantil.


Marielma Sampaio. Filha de uma agricultora do interior do Pará. A mãe entregou a filha a um casal com a promessa de que a menina iria trabalhar e estudar em Belém. No dia 12 de novembro de 2005, foi assassinada. O laudo do IML indicava que Marielma fora vítima de fraturas no crânio e nas costelas. Teve os pulmões perfurados, ruptura do baço e dos rins, sofreu queimaduras, além de seu corpo apresentar marcas de choque elétrico. Os responsáveis pelo crime foram a patroa de Marielma, Renata, e o patrão, Ronivaldo, que estuprou a menina antes de matá-la.

Essa criança da foto não existe mais. Deixou de existir porque era pobre e do sexo feminino. Mas as pancadas dos carrascos que eliminaram Marielma não são menos violentas do que a injustiça social deste país, que permite que continuem existindo milhares de outras Marielmas: meninas pobres, que são usadas como mão de obra, abusadas sexualmente e jogadas fora como resíduo.

O trabalho infantil doméstico envolve quase meio milhão de crianças e adolescentes no Brasil. Aproximadamente uma em cada 10 crianças entre 10 e 14 anos trabalha no país (CEPAL, 1999). Esta taxa está entre as três maiores da América Latina, com o agravante de que o Brasil tem, pelo menos, o dobro da renda per capita dos outros países que apresentam taxas similares (Honduras e Guatemala).

Das crianças e adolescentes que trabalham em casas de terceiros (dados PNAD – 2001): 93% são do sexo feminino, 61% são afrodescendentes, 45% têm menos de 16 anos (idade mínima permitida por lei para o trabalho doméstico).

O trabalho infantil doméstico, além das críticas usuais aplicáveis a todo tipo de trabalho infantil, gera também preocupações específicas devido a duas peculiaridades:

Por ocorrer fora do sistema econômico (não visa lucro), tem um impacto diferente sobre a socialização para o trabalho em relação ao exercido em estabelecimentos empresariais. Ou seja, o trabalho infantil doméstico contribui menos para a experiência do trabalhador do que outras formas de inserção no mercado de trabalho.

Por ser realizado no âmbito residencial, onde não é possível uma fiscalização sistemática, expõe o(a) trabalhador(a) a uma série de injustiças, desde a baixa remuneração e longas jornadas de trabalho até as mais críticas, que envolvem abusos sexuais e atos de violência.

Outra característica deste problema está relacionada ao gênero: as meninas somam mais de 90% dos casos, já que culturalmente tarefas domésticas são "naturalmente" atribuídas às mulheres.

As consequências deste tipo de trabalho impactam:

  • a saúde (por exemplo, muitas meninas sofrem de doenças nervosas, como problemas estomacais e dores de cabeça);

  • o desenvolvimento psicológico (amadurecimento acelerado, reduzindo o período da infância);

  • e o desenvolvimento social (privadas da convivência com suas famílias, não se sentem parte de um grupo social).

Dados: UNICEF, 1997.

15 de agosto de 2006

AS MULHERES DA MINHA GERAÇÃO



As mulheres de minha geração abriram suas pétalas rebeldes
Não de rosas, camélias, orquídeas ou outras flores.
De frivolidades tristes, de casinhas burguesas, de costumes anexos
Mas de pólens peregrinos entre ventos
Porque as mulheres de minha geração floresceram nas ruas
Nas fábricas se fizeram fiandeiras de sonhos
No sindicato organizavam o amor segundo seus sábios critérios
Ou seja,disseram as mulheres de minha geração
Cada uma segundo a sua necessidade e capacidade de resposta
Como na luta golpe a golpe e no amor beijo a beijo
Em escolas argentinas,chilenas ou uruguaias
Aprenderam o que tinham que saber para o saber glorioso
Das mulheres de minha geração
Mini – saias em flor nos anos setenta
As mulheres de minha geração não ocultaram nem as sombras
De coxas de fora como as de Tânia
Erotizando com o maior dos calibres
Os caminhos duros da hora marcada com a morte
Porque as mulheres de minha geração
Beberam com vontade o vinho dos vivos
Acudiram a todos os chamados
E foram dignidade na derrota
Nos quartéis lhes chamaram de putas e não as ofenderam
Pois vinham de um bosque de sinônimos alegres:Minas,Brotos, Gatas, Moças, Pequenas, Gurias, Garotas,Velhas,SenhorasSenhoritas, Panteras
Até que elas mesmas escreveram a palavra Companheira
Em suas costas e nas paredes de todas as celas
Porque as mulheres de minha geração
Nos marcaram com o fogo indelével de suas unhas
A verdade universal de seus direitos
Conheceram a prisão e os golpes
Habitaram mil pátrias e em nenhuma
Choraram seus mortos e os meus como se fossem seus
Deram calor ao frio e ao cansaço desejos
À água sabor e ao fogo a direção correta
As mulheres de minha geração pariram filhos eternos
Cantando “summertime” os amamentaram
Fumaram marijuana nos poucos descansos da luta
Dançaram o melhor do vinho e beberam as melhores melodias
Porque as mulheres de minha geração
Nos ensinaram que a vida não se oferece em borbotões companheiros
Porém de golpe e até o fundo das conseqüências
Foram estudantes, mineiras,sindicalistas, operárias,Artesãs, atrizes,guerrilheiras, até mães e parceiras
Nos raros tempos livres da luta de Resistência
Porque as mulheres de minha geração só respeitaram os limites que
Superavam todas as fronteiras
Internacionalistas de carinho,brigadistas do amor,
Delegadas de dizer te amo, milicianas na carícia
Entre uma batalha e outra as mulheres de minha geração se deram toda
E disseram que ainda era pouco.
Declararam-nas viúvas em Córdoba e Tlatelolco.
Vestiram-nas de negro em Porto Montt e São Paulo
E em Santiago, Buenos Aires ou Montevidéu
Foram as únicas estrelas na longa noite clandestina
Suas prisões não são prisões
Porém uma forma de viver para o que der e vier.
As rugas que aparecem em seus rostos
Dizem tenho sorrido e chorado e voltaria a fazê-lo.
As mulheres de minha geração
Ganharam alguns quilos de razões que se grudam em seus corpos
Se movem um pouco mais lentas e cansadas de esperar-nos na meta final
Escrevem cartas que incendeiam memórias
Recordam aromas proscritos e os exaltam
Inventam a cada dia as palavras e com elas nos empurram
Nomeiam as coisas e nos preparam o mundo
Escrevem verdades na areia e as entregam ao mar
Nos convocam e nos parem sobre a mesa posta
Elas dizem pão, justiça, liberdade
E a prudência se transforma em vergonha
As mulheres de minha geração são como barricadas:
Protegem e animam, dão confiança e suavizam o gume da ira.
As mulheres de minha geração são como um punho cerrado
Que resguarda com violência a ternura do mundo.
As mulheres de minha geração não gritam
Porque elas derrotaram o silêncio.
Se algo nos marca, são elas.
A identidade do século são elas.
Elas: a fé fortalecida,o valor oculto num panfleto
O beijo clandestino,o retorno de todos os direitos
Um tango na serena solidão de um aeroporto
Um poema de Gelman escrito num guardanapo
Benedetti compartilahdo no mundo de um guarda - chuva
Os homens e os amigos protegidos com raminhos de arruda
As cartas que fazem beijar o carteiro
As mãos que sustentam os retratos de meus mortos
Os elementos simples dos dias que aterrorizam o tirano
A complexa arquitetura dos sonhos de teus netos
Isso é tudo e tudo se sustenta
Porque tudo vem com seus passos e nos chega e nos surpreende.
Não há solidão onde elas cuidam
Nem esquecimento enquanto elas cantam.
Intelectuais do instinto, instinto da razão
Prova de força para o forte e vitamina do fraco.
Assim são elas, as únicas, imprescindíveis
Sofridas, golpeadas, negadas porém invictas
Mulheres de minha geração

Luís Sepúlveda, 1999 - ( tradução- Jacaré e Edimar)

22 de maio de 2006

MATERIAL GIRL


Estamos vivendo num mundo materialista
E eu sou uma garota materialista
Você sabe que estamos
Vivendo num mundo materialista
E eu sou uma garota materialista,
o cara com a grana de verdade









É sempre o "Senhor Certo"


ROSTINHO E CORPINHO DE BONECA:























A autoimagem é uma espécie de "retrato mental" que a pessoa tem de si mesma. A insatisfação com o próprio corpo, causada por uma autoimagem deturpada, pode levar a um distúrbio de autoimagem. A pessoa sente-se inadequada, pouco atraente, acha-se incapaz de ser aceita, sente-se constantemente rejeitada e pode partir para a "correção" daquilo que avalia como defeituoso em si própria.

Uma percepção inadequada do tamanho ou das proporções do corpo, ou de partes dele vistas como maiores, mais volumosas ou desproporcionais do que realmente são, pode gerar uma insatisfação constante em mulheres adultas, adolescentes e crianças. Nesse sentido, a insatisfação começa sendo vinculada a uma parte específica do corpo (como a barriga, por exemplo) e, ao final, atinge o corpo como um todo. Essa percepção pode levar a pessoa a se recriminar.

Muitas vezes, em função dessa distorção, a pessoa evita situações em que tenha de expor o corpo, como piscina, praia, relacionamentos íntimos, entre outros. Há divergências sobre se o transtorno de autoimagem seria causa ou consequência da anorexia nervosa, mas há consenso quanto ao seu papel na manutenção e até mesmo na perpetuação do quadro, sendo que a pessoa continua se vendo "gorda" mesmo quando está patologicamente magra. O emagrecimento não faz cessar a ânsia de perder peso — muito pelo contrário.

Embora menos comprometida do que na anorexia, a autoimagem corporal também está alterada na bulimia nervosa. A boneca Barbie, por exemplo, presente na vida de 9 em cada 10 meninas, tem proporções que, se projetadas em um corpo adulto, revelariam um caso de anorexia. São essas as proporções que moldaram — e continuam moldando — a autoimagem de milhares de meninas.