10 de novembro de 2011

Supermercado ou pelourinho?



Jorge Américo e Eduardo Sales de Lima

Casos de racismo e tortura no Extra, Walmart e Carrefour expõem os resquícios do escravismo e da ditadura civil-militar no Brasil



“Por que o negro, quando entra no mercado, passa a ser monitorado? Por que, inconscientemente até, o funcionário de segurança dessas lojas passa a ‘copiá-lo’? Porque, na cabeça dele, o negro é o suspeito padrão”. É o que defende o advogado Dojival Vieira, em entrevista à Radioagência NP. Ele acompanha três casos de pessoas que teriam sofrido tortura física e/ou psicológica em decorrência de racismo nas três maiores redes de supermercado do Brasil: Carrefour, Walmart e Extra (pertencente ao grupo Pão de Açúcar).

Dois destes casos aconteceram no início deste ano. Em Osasco (SP), no dia 16 de fevereiro, a dona de casa Clécia Maria da Silva, de 56 anos, foi parar no hospital depois de ter sido acusada de furto por seguranças da rede Walmart. Um segurança revistou sua bolsa. A cliente portava o cupom fiscal que comprovava o pagamento das mercadorias que levava. Segundo a médica que atendeu a dona de casa, ela teve uma crise de hipertensão e ficou próxima de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). O segurança teria dito que “isso acontece mesmo com os pretos”, segundo relato da cliente à Dojival, que acompanha o caso. A ocorrência foi registrada como calúnia no 9º Distrito Policial de Osasco no dia 18 de fevereiro.

Outro caso, tão grave quanto. Um garoto de 11 anos relatou ter sido levado a uma “salinha” nos fundos do hipermercado Extra da Marginal do Tietê, na cidade de São Paulo, e confirmou ter sido agredido por seguranças no dia 10 de janeiro. O garoto teria sido abordado após passar no caixa com biscoitos, salgadinhos e refrigerantes e se encaminhava para a saída da loja.

Estes dois casos não são inéditos. Em 2009, no estacionamento do Carrefour de Osasco, o vigilante Januário Alves de Santana foi apontado como suspeito de roubar seu próprio carro. Na sequência, sofreu torturas por quase 30 minutos, com socos, pontapés e uma tentativa de esganadura que lhe provocou fratura no maxilar, provocando a destruição da sua prótese dentária.

A existência dessas “salinhas de tortura”, evidenciadas no caso do garoto abordado no Extra e do vigia agredido no Carrefour, põe os supermercados em condição análoga às masmorras. Isso de acordo com Hédio Silva Jr., ex-secretário de Justiça do Estado de São Paulo.“São crimes hediondos. São salas de interrogatórios, espécies de masmorras contemporâneas em que as pessoas são isoladas do público e submetidas a toda sorte de constrangimento. Ao acentuar o papel da vigilância, com isso não estou diminuindo ou relativizando a responsabilidade que a empresa que contrata o serviço, que são os supermercados, possui”, elucida.

Pelo menos no caso de 2009 ocorreu uma decisão inédita do Poder Público. No início de fevereiro, a polícia de São Paulo indiciou seis seguranças da rede de supermercados Carrefour pelo crime de tortura motivada por preconceito racial. Mas há muito pela frente. A partir de agora, de acordo com Dojival Vieira, caberá ao MP oferecer a denúncia e à Justiça aceitá-la, instaurar o processo, passar os indiciados a réus e condená-los de acordo com a lei. Segundo Douglas Belchior, integrante do conselho geral da Uneafro-Brasil, o ineditismo desse indiciamento por crime de tortura motivado por preconceito racial ainda expõe a vagarosidade no tratamento de crimes dessa lógica dentro das instâncias de poder.



Punir e vigiar

Juntas, essas três maiores redes varejistas do país lucraram R$ 71,5 bilhões em 2009. Só o Walmart possui 400 lojas no Brasil. Em 2010, as unidades da empresa espalhadas pelo mundo faturaram quase 410 bilhões de dólares. Mesmo com o lucro, parece não haver preocupação em relação a investimentos na capacitação de seus seguranças. “As empresas de segurança transportaram, para as relações de consumo, práticas que não são próprias, não são compatíveis com o Estado democrático de direito. E as empresas que as contratam – os supermercados e shoppings – não tiveram até agora a preocupação de investir na capacitação e no treinamento desses funcionários”, pondera Dojival.

Segundo ele, essas empresas contratadas subverteram o princípio constitucional, base de qualquer Estado democrático de direito. “Qual é a lógica que essas empresas impuseram? Todos são culpados até que se prove a inocência”, explica.

Hélio Silva vai mais a fundo e enlaça a falta de treinamento desses profissionais de segurança que trabalham nessas redes de supermercado com a herança cultural brasileira. “Se eles não têm treinamento, é mais ou menos óbvio que ele vai reproduzir no trabalho dele os conceitos que ele aprendeu socialmente.

Por isso, além de educação escolar, como um todo, a formação desses profissionais tem que ter um conteúdo que o prepare para não reproduzir no seu trabalho os conceitos aprendidos socialmente”, defende. Segundo ele, o Brasil tem um certo atavismo cultural muito vinculado a esse tipo de prática cruel e que muitas instituições têm dificuldades para romper com essa mentalidade. Como ressalta Dojival, esses prováveis casos de racismo ilustram os efeitos perversos de dois tipos de “herança” de quais o país ainda não se livrou: o escravismo e a cultura do “prende e arrebenta” do período ditatorial. “Todos sabemos que boa parte dessas empresas são propriedade de militares que serviram na ditadura e importam para as relações de consumo as práticas desse período, que no caso dos negros, fica agravada pelo fato de ser o suspeito padrão, exatamente pela condição de sub-cidadão que ele ocupa desde o período escravista”, salienta Dojival.

O Brasil de Fato entrou em contato com as assessorias de imprensa das três redes de supermercado, Extra, Walmart e Carrefour, mas não obteve nenhum tipo de posicionamento relacionado aos supostos casos de racismo e tortura, tampouco acerca dos nomes das empresas de segurança que prestam serviço nas lojas. O jornal também tentou contato com Januário Alves de Santana, mas ele firmou um acordo extra-judicial no qual não pode expor qualquer tipo de informação sobre o caso, com fim de que o inquérito não seja prejudicado.



Publicado originalmente em 08/11/2011, no site do Brasil de Fato: http://www.brasildefato.com.br/content/supermercado-ou-pelourinho


"ISSO ACONTECE MESMO COM OS PRETOS"




8 de novembro de 2011

Compre o preço.
Ronaldo Bressane



Acabei de voltar da tal da butique Daslu. Fui lá ver o show do Marcelo D2, tá ligado? Ele memo. O cara tá nos pano, mano. Ele é agora patrocinado pela Mandi, jão, se liga. Uma roupa de grife aí que abriu uma loja na Daslu. Eu descolei um convite VIP com um truta meu que trampa na copa. Itaim, certo? Uma par de quarteirão lotadaço de man in black e Cherokee e Audi e o caralho a quatro. Caipirinha ice na faixa. Bati mó larica. Qual é? Umas paradas à pampa pra comer, umas mina de elite memo, tudo loira, velho, o cabelo num reflexo só, luzes, aqueles pelinho no braço, mó perfume no ar, perfume, perfume. D2 mandou bem. Apareceu o Seu Jorge, na estica. Ele também é artista Mandi. Levou um tanto aí pra desfilar, mais a roupa que ele quiser, o ano inteiro, saca? Os nego se trata. Tinha muito maurício, é lógico, mas cê queria o quê? D2 lembrou que nóis tamos se organizando pra desorganizar, tamo desorganizando pra se organizar. Falou do tal do Chico Science. E do tal do Bezerra da Silva. Tinha um vídeo mostrando o Gracie lutando músculo pular. Tinha um vídeo mostrando uns carinhas pegando onda. Eu tiro é onda, manda o D2. E o povo obedece. O povo? Tinha uma loira de dois metro de altura na minha frente. Uma hora subiu no palco o Thaíde, tá ligado? Que tempo bom, que não volta nunca mais. Ele pediu pra galera agitar a mãozinha dum lado pro outro. Mano, nunca vi tanto Rolex e Bulgari na minha fuça, pra lá, pra cá, pra lá, pra cá, tava pra fazer mó funça naqueles vacilão. De brilho no cabelo e camisa pra dentro da calça com cinto. E uns com cinto. E uns playboy com pano de officeboy. Eu já vi tanta coisa, jão, eu não me impressiono mais com nada. Tá tudo certo. E não é que os playba tava cantano direitinho as parada? D2 falava que representa o pesadelo do hip hop. E os maurício curtia! Qual é? D2 falava que você é você, não importa de onde é. D2 falava VAMO FAZÊ BARULHO? Outra hora subiu o cara dono da Mandi, tá ligado. O dono da parada subiu no palco e D2 e Seu Jorge pediro pro cara soltar um sambinha. O cara deu uma reboladinha mais ou menos. Mas tá limpo. Foi o batismo dele, né não, jão? O cara curte os movimento, é nóis tamém, por que não, velho? Só porque é playboy? Mó discriminação. E falar em discriminação, pô, aí, não podia fumar cigarro na Daslu, velho. Mas eu vi umas perua fumano. Até tive uma noinha de puxar meu dubom, mas eu que não queria queimar tudo até a última ponta ali, velho, dá licença. Fala sério, jão, uns tiozinho sacando tudo, a Caras, o Estadão, a Folha, o Nizan Guanaes, a Cicarelli, uma par de modelo, uma par de segurança. Eu tiro é onda, mandou o D2. Eu vim do Rio de Janeiro a Nova York levado pelo som, no Andaraí, no Brooklin, só tem sangue-bom, vou te explicar como é que eu faço pra sair dessa merda, eu tô sempre ligado, e mantenho minha mente aberta, com dinheiro é muito fácil, todo mundo é feliz, eu quero vê tira onda sem dinheiro como eu fiz. Tá tudo dominado. Qual é? Eu tipo tava curtindo o show mas tipo achei meio sinistro, tá ligado. Tipo: num sei, uma hora eu colei numa parede e fiquei meio assim noiado que ia dar um vomitão num terno Armani e ia fazer merda. Eu sempre acho que vou fazer merda uma hora, e aí eu faço. Mas pra desencanar dei uma olhada nos preço dos pano: jaqueta de dez conto. Dez mil conto. Tinha uns caras vendendo apê de 500 metro quadrado. Tinha uma foto do Malcolm X de barão, numa beca muito louca, do lado de umas foto de uns rei, de uns figura elegante, em cima de uma estante onde a gravata mais na moral custava 400 conto. Achei louco o negão ali, tipo símbolo de status pros maurício. Jão, ali, terno, sapato, meia, cristal, charuto, livro, vestido, perfume, carro, tudo tá à venda, jão, tudo à venda. Tinha uma loira de dois metro de altura que ficava tipo me zuando e passando o rabo dela no meu nariz, aqueles sapato me agulhando o pé, foda. E o perfume, velho. Os cara se trata. VAMO FAZÊ BARULHO? Eu ouvi uns caras falando que era um acontecimento histórico, o D2 na Daslu. Tipo o encontro de dois mundos, jão, mas eu não vi nada disso. Eu não vi porra nenhuma de dois mundos se encontrando e nem que a vaca tussa eu vou acreditar que Marte vai invadir a Terra, tá ligado. Eu vi que as minas da faxina tavam usando roupas de minas da faxina, tá ligado. Então tá tudo certo, tipo. Eu pisei num chiclete que uma loira jogou no chão, mano, e ela me olhou dum jeito como se olha um extintor de incêndio, saca. O D2 deu uns berro contra a MTV, morou. O D2 ganhou 3 VMBs semana passada. O D2 tava nuns panos da hora. Qual é? Eu fiquei assim meio zuado com aquelas caipirinha ice. Eu queria dar um rolê, mas pra todo lugar que eu ia o chão era cheio de man in black em volta e aqueles maurício com malha em cima do ombro, morou, mano. Eu ouvi um cara dizer pra outro que o Thaíde, o cara não levou nenhum cachê, pra cantar no show do D2, ganhou foi uns 15 conto em roupa que tirou direto na loja. Tá certo, jão. O som tava da hora. Foi me dando um negócio a hora que eu vi, que, porra, na real, tudo ali era igual. Era todo mundo igual aquela merda. Os playba sabia todas as músicas do D2. O D2 lembrou do Sabota, rap é compromisso. O D2 gritava VAMO FAZÊ BARULHO! Mas ninguém fazia barulho, mesmo, na real. Tipo, eu soltei uma bufa, a porra dos salgadinho me fudeu o lombo, mas acho que ninguém sacou, morou. Eu também não vi ninguém tirando uma fumaça, aí fiquei meio na miúda, nem quis acender minha ponta. Na real, eu vi que eu tava sozinho, velho, muito sozinho. Tinha vários retrato na parede, uns rei, umas modelo, um lance assim meio pop, é pop art que fala, eu acho. E tinha aquela foto do Malcolm X em cima de uma gravata Zegna por 497 contos. Todas as roupas tinham preço, tudo ali tem preço, ali você não compra a roupa, compra o preço. O show acabou, todo mundo curtiu, todo mundo aplaudiu. Os cara foram ali na elite e desenvolveram o discurso. Na rua, eu vi uns figuras combinando de ir comer num japonês. Lógico que a parada dos cara tem a ver com a rua, mas, na boa, qual o pobrema se playboy curte o som dos cara? Eu fui saindo fora de fino e até vi o D2 botando o carrinho do filho dele no porta-malas da Pajero dele. O mano tem vez, a vez chegou, né, jão. A minha, igual, chega também um dia, tá ligado? Tipo. Eu fui andando ali pelo Itaim meio rápido, porque tou ligado que bumba pra quebrada é só até a meia-noite. Fui andando na minha, andano, andano, andano. Até que sentei no ponto e tudo começou a rodar, a rodar, a rodar, e aí meu deu um troço e aí fudeu. Chamei o hugo memo, velho, vomitei toda a parada dos salgadinho de salmão e das caipirinha ice, gorfei tudo, mano, mó jato, foda, mó nojeira tudo em cima de mim. Tou fudido, jão, é o único pano de balada que eu tenho, minha mãe vai me dar um esporro. Me limpei num jornal. Tá limpo. D2 mas mantenha o respeito. Vou ter que jogar fora e comprar outro. Foda-se. Rap é compromisso, e fudido por um, fudido por mil. Qual é, mano? Acabo de voltar da tal da butique Daslu. Fui lá ver o show do Marcelo D2, tá ligado nos movimento? Ele memo. Na procura da batida perfeita. Ano que vem, se eu descolar uma boiada dessas, vou de novo.

25 de outubro de 2011

Assédio e abuso sexual não tem graça!




Milhares de brasileiras que utilizam transporte coletivo são vítimas de assédio e abuso sexual todos os dias. Todo mundo conhece histórias de mulheres molestadas a caminho do trabalho, do estudo, na volta para casa.
Um homem se aproximou me segurou pelo braço, mandou ficar quieta ou ia cortar meu rosto. Achei que era um assalto, abri a bolsa dei minha carteira pra ela. Mas ele colocou a mão embaixo da minha saia, rasgou minha calcinha e me tocou.
O assédio começou assim que eu entrei no vagão lotado. Ele se encostou no meu corpo. Olhei para trás e vi o pênis dele para fora da calça. Senti tanto nojo que comecei a passar mal.

Situações como essas causam revolta e ojeriza em pessoas com o mínimo de sensibilidade, mas têm sido objeto das piadas sem graça do Programa Zorra Total. No quadro do programa chamado Metrô, além de estereotipar as mulheres pobres através das personagens Valéria e Janete, o humorismo da rede Globo faz coro com Rafinha Bastos, dando a entender que algumas mulheres (leia-se as feias, as que estão acima do peso, as pouco instruídas, as suburbanas) devem é “agradecer” e “usufruir” do assédio, do abuso, do estupro ou outra forma de violência que lhes for imposta.
Ao invés de reconhecer que algumas piadas não deveriam ser difundidas pelos meios de comunicação, pois banalizam questões sérias, que devem ser objeto de reflexão e não de chacota, os “humoristas” preferem continuar com a política de depreciação do outro, isto é: das mulheres, dos homossexuais, dos negros, pessoas obsessas, pouco instruídas e assim por diante.

19 de outubro de 2011

pequeno-Cordel: Sandice da Garota-Devassa





Caras companheiras vejam só que sandice,

Era toda conservadora, cheia das donzelice.

Boa moça, sem pecado e nem nada de original,

Nunca deve ter se tocado na região vaginal,

Andou sumida, voltou filosofando sobre sexo anal.

Os programas de fofoca fizeram até plantão,

Todo mundo a aplaudir o bendito do maridão,

Com cara de bobalhão que virou o machão.

Ela disse: não sou mais sem graça,

Fui promovida à garota Devassa.

Mas quase nada mudaria,

Só o lucro da cervejaria,

A enriquecer com a putaria.

Sexo vende qualquer produto.

Do mais caro ao mais fajuto.

Autoria: Geni-Joga-Pedra

16 de outubro de 2011

Abaixo as propagandas sexistas (parte 2)


O pró-ativismo das agências de publicidade brasileiras na gestão do machismo.

A grande luta das mulheres não é contra os homens. É contra a lei da gravidade: esses dizeres são da propaganda de uma marca famosa e muito consumida de xampu (exibida em 2006) . O comercial apresentava uma sequência de cenas de mulheres fazendo ginástica, tratamentos estéticos, usando corpetes e outros instrumentos para manter o bumbum e seios empinados. As imagens se somavam a uma narrativa claramente anti-feminista. As verdadeiras heroínas, segundo o comercial, estavam na liga das mulheres contra gravidade.

Oscar Wilde dizia: “cínico é aquele que conhece o preço de tudo e não reconhece valor em nada”. Utilizando-se de poucas palavras esse anúncio convertia em LUTA  o comportamento vão das mulheres treinadas para serem ancas, pernas e seios — com conotação de luta social — e convertia o feminismo e todo seu conteúdo emancipatório numa vã “guerra dos sexos”. Como se a luta feminista fosse contra os homens e não contra o status quo que homens e mulheres ajudam a manter. Além de  ridicularizar o feminismo, a narrativa exaltava a condição de “objeto” habitualmente atribuída às mulheres. Como objetos perecíveis que são, as mulheres devem lutar para permanecerem enxutas. Nada de bradar contra o machismo. A verdadeira luta das mulheres é contra aquilo que não se pode mudar... A gravidade... A decrepitude física. Quanto aquilo que podemos  mudar — como o comportamento masculino e feminino — o imperativo era: essa luta não é importante; as feministas estavam erradas; se preocupe com sua condição de objeto e não com a sua condição social.
Incrível como os imperativos sexistas são sempre os mesmos e como o mundo publicitário se mantêm alheio ao crescimento da violência contra mulher, assim como às conquistas importantes alcançadas por meio do movimento social que essa propaganda de xampu teimava em depreciar.
Cinco anos mais tarde, pouca coisa mudou na TV, o sexismo continua sendo a tônica dos “reclames nossos de cada dia”. Cá estou tentando repercutir algum senso crítico sobre as propagandas sexistas produzidas recentemente. A exemplo da propaganda da Hope, devidamente esculhambada no post abaixo.
Uma coisa que me deixa intrigada é a dinâmica de trabalho das agências publicitárias brasileiras, que se autoproclamam “super-criativas”, mas recorrem aos mesmo recursos ano após ano. Talvez acreditando que se deram certo no passado, darão no futuro. Quando tento imaginar o expediente de trabalho das glebas publicitárias, sempre imagino um ambiente clean, bem decorado, cheio de gente pedante praticando o “ócio criativo”. Com o predomínio do ócio sobre o criativo. Um lugar onde os publicitários passam o dia coçando seus sacos e com tanto estímulo descobrem o poder do “falo”. Derivam daí as propagandas de homem pra homem : onde se observa a valorização do universo masculino. Nesse tipo de propaganda, o homem é o sujeito da ação ou da situação, enquanto as mulheres (em geral modelos) são meros acessórios ou desempenham a função de suas acompanhantes, a exemplo das propagandas de cerveja. Nas propagandas de homem pra mulher o que chama atenção é a linguagem “pedagógica”. Os anúncios dos produtos servem para ensinar às mulheres como limpar o chão, o banheiro, como lavar as roupas, cuidar da saúde da família, como ficar cheirosa, depilada, higienizada e bonita para agradar os homens. Uma propaganda de chinelos de borracha foi além, colocando galã da Globo para ensiná-las COMO NÃO PROCEDER DURANTE A TPM. Ainda não descobri qual a misteriosa ligação entre Havaianas e TPM, mas os coçadores de saco a estabeleceram. Ou será que estão usando os 30 segundos milionários do horário nobre da TV para mandar seu recado às mulheres? Do tipo: não chateia e vê se recalca sua TPM!

Existe ainda a propaganda “de mulher pra mulher”. Essas também não se salvam...




Verão de cabeça feita é o título da redação do informe publicitário O Sol Nasce para Todas que diz: A linha Dove está trazendo novas armas pra você arrasar. (...) O que significa pele, corpo e cabelos muito bem tratados, sim, senhora. E por falar em sim, senhora, pare de dizer amém pra tudo o que a dona mídia fala pra você. Você é mais do que um par de medidas, um corpo dourado e um cabelo milimetricamente alisado à chapinha. Nada contra, se você gosta disso. Mas o verão chega mais democrático e abraça também os cabelinhos mais rebeldes, os corpos mais cheinhos, as branquelas (quem inventou essa palavra, por Deus!), os peitos pequenos, os siliconados ou os naturalmente grandes. Seja lá onde você se enquadra. Você é mais. Beleza é um conceito amplo, que também serve pra cabeça. Cabeça feita, cabeça boa. O que quer dizer você feliz com você, com os cuidados que você dispensa ao seu corpo, com a sua beleza própria e particular. Quem resiste ao charme de um olhar confiante? Quem resiste a uma mulher mais inteira, mais convencida do que é e daquilo que pode conquistar? Você não tem medidas. Você é única. Vá pra praia, vá pra noite, simplismente vá. Dove vai com você!.

Quem assina esse “hino à democracia Dove” é Cos Tanza Pascolato uma famosa consultora de moda, dona de uma agência de modelos. Apesar das model’s agenciadas pela dona Tanza estarem adequadas ao Sistema Internacional de Pesos e Medidas, na propaganda ela diz: Você é mais que um par de medidas. Cinismo, sarcasmo ou hipocrisia? Visto que esses “atributos” são muito valorizados no meio publicitário. Com essas palavras a “expoente da elite da moda brasileira” anima o populacho feminino a ir à praia sem receio dos preconceitos alheios: Dove vai com você. A foto que acompanha a redação da dona Tanza traz um grupo de mulheres jovens e sorridentes. Cada uma representando um biótipo “fora do padrão”: uma negra (pois essa etnia costuma não ser incluída nos padrões de beleza), que é a dos “cabelos rebeldes” (eufemismo que veio substituir a expressão racista cabelo ruim); uma mulher tão magra e tão alta quanto a Gi Bündchen, mas sem aqueles peitões; e uma "mulher cheinha", mas que se “esvaziar” cinco quilos “fica no ponto”. No fundo um cenário que lembra a praia, arena democrática, onde todos os corpos têm igual direito de se exibir com pouca roupa. A foto dos produtos Dove trazia ainda os dizeres: Nova Linha Dove Verão, Trata bem todas as mulheres.
Propagandas como essa incitam as mulheres a consumirem cosméticos para se sentirem mais confiantes — como se amor-próprio pudesse ser vendido em potinhos plásticos. A verdade é que esses anúncios cheios de “boas intenções” com as “questões femininas”, que buscam “dialogar” com as “mulheres comuns” — transformando a crítica sincera à tirania da beleza em “lirismo comercial” — não passam de falácia. Trata-se de um tipo específico de merchandising capaz de parasitar a controvérsia e corrompê-la em beneficio próprio.
Recentemente um merchan  de mulher pra mulher desencadeou uma reação curiosa. Cerca de 300 homens entraram na justiça contra uma propaganda de esponja de aço intitulada “Mulheres evoluídas”. Eles se sentiram ofendidos com os clichês presentes no comercial protagonizada pelas humoristas Marisa Orth, Dani Calabresa e Monica Iozzi, onde, entre outras coisas, os homens são comparados a cães que precisam ser adestrados à jornalada. Em primeiro lugar, as mulheres que deviam ficar ofendidíssimas com essa propaganda. De acordo com o diretor de marketing da Bombril, tratar-se-ia de uma estratégia pontual em homenagem às mulheres. Fala sério! Homenagear as mulheres sugerindo que “mulheres evoluídas” são aquelas que agem como os machistas da pior espécie (trajando aquele terno “black-chauvinista” estilo CQC). Dispenso esse tipo de homenagem. Sem falar que, em última análise, a mensagem dessa sátira é “quem manda em casa é a mulher”, um arremedo que propõe que as mulheres evoluíram, mas continuam sendo as rainhas (amorosas ou tirânicas) do lar.
Toda propaganda visa estimular o consumo, portanto, sua função principal não é divertir, emocionar, instruir ou coisa que o valha. Alguns publicitários chegam a defender esse tipo de asneira, mas sua função real é revestir os objetos de significados que não lhes pertence. Na maioria das vezes esses significados vão além da utilidade do próprio objeto, transformando-o em símbolo de status ou de modo de vida. Sob os holofotes os objetos manufaturados, por exemplo, deixam de representar as relações desiguais entre capital e trabalho. Afinal, o I-phone que o consumidor contempla e aprende a desejar, através da propaganda, deve ser desvinculado do produto fabricado mediante exploração de mão-de-obra infantil, escrava ou subempregada. Neste sentido, os marketeiros são peças fundamentais nessa engrenagem que dissimula as condições sociais em que os produtos são feitos. A artimanha é revestir de significados o ato de consumir e ocultando informações que eventualmente desfavoreça ou desestimule o consumo e fazê-lo se alienar a ponto de acreditar que os produtos anunciados nas propagandas possuem certos atributos que vão garantir satisfação pessoal.
Contudo, isso não explica a quantidade e qualidade das propagandas sexistas veiculadas pela TV brasileira, com benção dos órgãos como CONAR, que deveriam se não fiscalizar, pelo menos chamar atenção para falta de bom senso e mau gosto de algumas peças publicitárias.  






O fato é que as agências publicitárias e seus agentes estão aí para vender mercadorias, mas não só isso, pois é preciso acondicioná-las às ideologias dominante, e o machismo (fundamentado no patriarcado) não tem cessado de ser uma ideologia dominante.





14 de outubro de 2011

ABAIXO AS PROPAGANDAS SEXISTAS!




















Entre na campanha contra propagandas sexistas, que a exemplo da propaganda da marca HOPE, contribuem com a manutenção da máxima  machista de marketeiros pouco criativos de que  mulher é   "o melhor embrulho para as mercadorias", de  que o corpo feminino é um objeto que agrega valor a outros objetos.  Bendita seja Rita Lee que, contrariando os chauvinistas do marketing, disse: NEM TODA BRASILEIRA É BUNDA.

10 de outubro de 2011

O post é voz que vos libertará [Teatro Mágico]

[The "post" is the voice that will set you free]
Manuel Castells fala sobre  o papel da internet nas lutas sociais mundo afora. 

Publicada originalmente em:
www.outraspalavras.net/2011/03/01/castells-sobre-internet-e-insurreicao-e-so-o-comeco
Por Jordi Rovira, Universitad Oberta de Catalunya
Tradução: Cauê Seigne Ameni











Os meios de comunicação passaram semanas centrando sua atenção na Tunísia no Egito. As insurreições populares que se desenvolveram após o sacrifício do jovem tunisiano Mohamed Bouazizi, terminaram em poucos dias com a ditadura de Bem Ali e na sequência, como peças enfileiradas de dominó, com a “presidência” de Hosni Mubarack. Abriram-se processos democráticos em ambos os países. Manifestantes também saem às ruas árabes na Líbia, Iêmen, Argélia, Jordânia, Bahrain e Omã.
Em todos esse processos, as novas tecnologias jogam um papel chave primordial — em especial, as redes sociais, que permitem superar a censura. Ante esse desfecho histórico, Manuel Castells, catedrático sociólogo e diretor do Instituto Interdisciplinar sobre Internet, na Universitat Oberta de Catalunya, aprofunda a reflexão sob o que se passa e oferece chaves para entender um movimento cidadão que tira o máximo proveito dos novos canais de comunicação ao seu alcance.

Os movimentos sociais espontâneos na Tunísia e Egito pegaram desprevenidos os analistas políticos. Como sociólogo e estudioso da Comunicação, você foi surpreendido pela ação da sociedade-rede destes países, em sua mobilização?

Castells - Na verdade não. No meu livro Comunicação e Poder, dediquei muitas paginas para explicar, a partir de uma base empírica, como a transformação das tecnologias de comunicação cria novas possibilidades para a auto-organização e a auto-mobilização da sociedade, superando as barreras da censura e repressão impostas pelo Estado. Claro que não depende apenas da tecnologia. A internet é uma condição necessária, mas não suficiente.
As raízes da rebelião estão na exploração, opressão e humilhação. Entretanto, a possibilidade de rebelar-se sem ser esmagado de imediato dependeu da densidade e rapidez da mobilização e isto relaciona se com a capacidade criada pelas tecnologias do que chamei de “auto-comunicação de massas”.

Poderíamos considerar estas insurreições populares um novo ponto de inflexão na história e evolução da internet? Ou teríamos que analisá-las como conseqüência lógica, ainda de grande envergadura, da implantação da rede no mundo?



Castells - As insurreições populares no mundo árabe são um ponto de inflexão na história social e política da humanidade. E talvez a mais importante das muitas transformações que a internet induziu e facilitou, em todos os âmbitos da vida, sociedade, economia e cultura. Estamos apenas começando, porque o movimento se acelera, embora a internet seja uma tecnologia antiga, implantada pela primeira vez em 1969.

A juventude egípcia desempenhou um papel chave nas insurreições populares, graças ao uso das novas tecnologias. No entanto, segundo os cálculos de Issandr El Amrani, analista político independente no Cairo, apenas uma pequena parte da população egípcia dispõem de acesso a internet. Pensa que esta situação pode criar uma brecha – usando suas próprias palavras, entre “conectados” e “desconectados” – ainda maior que a que se da nos países desenvolvidos?



Castells - O dado já esta antiquado. De acordo com uma pesquisa recente (2010), da empresa informação Ovum, cerca de 40% dos egípcios maiores de 16 anos estão conectados à internet — se levarmos em conta não apenas as ligações domiciliares, mas também os cibercafés e os centros de estudo. Entre os jovens urbanos, as taxas chegam a 70%.
Além disso, segundo dados recentes, 80% da população adulta urbana esta conectada por celulares. E de qualquer maneira, estamos falando de um país com 80 milhões de habitantes. Ainda que apenas um quarto deles estivessem conectados, já poderia haver milhões de pessoas nas ruas. Nem todo o Egito se manifestou, mas uma número de cidadãos suficiente para que se sentissem unidos, e pudessem derrotar o ditador.

A história da brecha digital em termos de acesso é velha, falsa hoje em dia e rabugenta. Parte de uma predisposição ideológica de certos intelectuais interessados em minimizar a importância da internet. Há 2 bilhões de internautas no planeta, bilhões de usuários de celulares. Os pobres também têm telefones móveis e existem ainda outras formas de acessar a internet. A verdadeira diferença se dá na banda e na qualidade de conexão, não no acesso em si, que está se difundindo com rapidez maior que qualquer outra tecnologia na história.


Até que ponto o poder dispõe de ferramentas necessárias para sufocar as insurreições promovidas desde a rede?

Castells - Não as tem. No Egito, inclusive, tentaram desconectar toda a rede e não conseguiram. Houve mil formas, incluindo conexões fixas de telefone a numero no exterior, que transformavam automaticamente as mensagens em twetts e fax no país. E o custo econômico e funcional da desconexão da internet é tão alta que tiveram que restaurá-la rapidamente.

Hoje em dia, um apagão da rede é como um elétrico. Bem Ali não caii tão rápido, houve um mês de manifestações e massacres. O Irã não pode se desconectar a rede: os manifestantes estiveram sempre comunicando-se e expondo suas ações em vídeos no Youtube. A diferença é que ali, politicamente, o regime teve força para reprimir selvagemente sem que interviesse o exército. Porém as sementes da rebelião estão plantadas e os jovens iranianos, 70% da população, estão agora maciçamente contra o regime. É questão de tempo.

A mobilização popular através dos meios digitais criou heróis da cibernéticos no Egito — como Weal Ghonim, o jovem executivo do Google. Que papel podem desempenhar esses novos lideres no futuro de seus países?

O importante das “wikirrevoluções” (as que se auto-geram e se auto-organizam) é que as lideranças não contam, são puros símbolos.

Símbolos que não mandam nada, pois ninguém os obedeceria, eles tampouco tentariam impor-se. Pode ser que, uma vez institucionalizada, a revolução coopte se algumas destas pessoas como símbolos de mudanças — ainda que eu duvide muito que Ghonim queira ser político. Cohn Bendit era também um símbolo, não um líder. Foi estudante e amigo meu em 68, ele era um autêntico anarquista: Rechaçava as decisões dos líderes e utilizava seu carisma (foi o primeiro a ser reprimido) para ajudar a mobilização espontânea.

Walesa foi diferente, um vaticanista do aparato sindical. Por isso, tornou-se político rapidamente. Cohn Bendit tardou muito mais e ainda assim é, fundamentalmente um verde, que mantém valores de respeito às origens dos movimentos sociais.

A aliança entre meios de comunicação convencional e novas tecnologias é o caminho a seguir no futuro, para enfrentar com êxito os grandes desafios?

Os grande meios de comunicação não têm escolha. Ou aliam-se com a internet e com o jornalismo cidadão, ou irão se marginalizando e tornando-se economicamente insustentáveis. Mas hoje, essa aliança ainda é decisiva para a mudança social. Sem Al Jazeera não teria havido revolução na Tunísia.

Em um artigo intitulado “Comunicação e Revolução”, você recordou que em 5 de fevereiro a China havia proibido a palavra Egito na Internet. Acredita que existem condições para que possa ocorrer, no gigante asiático, um movimento popular parecido com o que esta percorrendo o mundo árabe?


Não, porque 72% do chineses apoiam seu governo. A classe média urbana, sobretudo os jovens, estão muito ocupados enriquecendo-se. Os verdadeiros problemas do campesinato e operários — ou seja, os verdadeiros problemas sociais da China — encontram se muito longe. O governo resguarda-se demais, porque a censura antagoniza muita gente que não está realmente contra o regime. Na China, a democracia não é, hoje, um problema para a maioria das pessoas, diferente do que ocorria na Tunísia e no Egito.

Esse novo tipo de comunicação, globalizada, atomizada e que se nutre se da colaboração de milhões de usuários, pode chegar a transformar nossa maneira de entender a comunicação interpessoal? Ou é apenas uma ferramenta potente a mais, à nossa disposição?

Já tranformou. Ninguém que esta inserido diariamente nas rede sociais (este é o caso de 700 dos 1,2 milhões de usuários) segue sendo a mesma pessoa. Mas não é um mundo exotérico: há uma inter-relação online/off-line.
Como esta comunicação mudou, e muda a cada dia, é uma questão que se deve responder por meio de investigação acadêmica, não através de especialistas em fofocas. E por isso empreendemos o Projeto Internet Catalunha na UOC.

Podemos dizer que os ciber-ataques serão a guerra do futuro?

Na realidade, esta guerra já faz parte do presente. Os Estados Unidos consideram prioritária a ciberguerra. Destinaram a este tama um orçamento dez vezes maior que todos os demais países juntos. Na Espanha, as Forças Armadas também estão se equipando rapidamente na mesma direção. A internet é o espaço do poder e da felicidade, da paz e da guerra.
É o espaço social do nosso mundo, um lugar hibrido, construído na interface entre a experiência direta e a mediada pela comunicação, e sobretudo, pela comunicação na internet.







10 de setembro de 2011

9/11 : day to remember one attack the  democracy, not Bush's democracy , but Allende's democracy.

9 de setembro de 2011

11 DE SETEMBRO: DIA LEMBRAR UM ATENTADO À DEMOCRACIA.



No dia 11 de setembro de 1973, um avião WB-575 da força área dos EUA, pilotado por militares norte-americanos sobrevoou a cidade de Santiago. Enquanto isso, outros 33 caças da mesma aterrissavam na base aérea de Mendoza, na fronteira da Argentina com o Chile. Essas manobras militares antecederam o ataque aéreo ao Palácio de La Moneda e o assassinato do presidente Salvador Allende. O exército chileno sob o comando do general Augusto Pinochet, com apoio de militares norte-americanos e agentes da CIA, além das organizações paramilitares de extrema direita foram bem sucedidos na derrubada do regime socialista, democrático e popular em construção desde a eleição de Salvador Allende à presidência do Chile, em 1970.

Antes de ser eleito presidente Allende disputou e perdeu as eleições presidenciais de 1952, 1958 e 1964. Nessa última, Eduardo Frei foi eleito ao cargo com patrocínio de Washington, que investiu milhões na campanha do candidato da direita chilena (do Partido Democrata Cristão) que contou com a colaboração de agentes da CIA na sua campanha.


Contudo, nas eleições de 1970, a revelia dos interesses norte-americanos, Allende foi eleito presidente pela coalizão de esquerda Unidade Popular (UP), com 36% dos votos, contra 34% de Jorge Alessandri, o candidato da direita bancado pelos EUA, e 27% do também candidato de esquerda Radomiro Tomic. Documentos secretos da Agência de Estado Americana, que vieram à tona anos depois, revelam que o governo dos EUA tentou impedir que Allende tomasse posse. Como não obteve êxito, passou ao “plano B”: inviabilizar seu governo, impondo um bloqueio econômico informal ao mercado chileno e derrubando o preço do cobre, o principal produto de exportação do país, no mercado internacional. Os Estados Unidos apostavam que a deterioração da economia chilena instigaria o povo contra o governo. O embaixador norte-americano no Chile, Edward Korry, afirmava: "— Não permitiremos que nenhuma porca e nenhum parafuso (americanos) cheguem ao Chile de Allende". Nixon, por sua vez, ordenou ao Departamento de Defesa: "— Há uma chance em dez, mas salvem o Chile, façam a economia estancar!".

As táticas para derrubar Allende não se restringiram à economia. Neste período, a CIA financiou os jornais chilenos, bem como emissoras de rádio e TV que se opunham ao governo.Também apoiou, financiou e treinou grupos paramilitares de extrema direita que, aos poucos, tornar-se-iam grupos terroristas, a exemplo o Patria y Libertad. Sob a chancela da CIA e dos partidos de direita, como Partido Nacional do Chile, esses grupos tentaram de todas as formas depor o presidente democraticamente eleito e derrotar sua base de apoio, a Unidade Popular. Não convinha aos EUA, as voltas com a guerra fria, e envolvido na guerra do Vietnã, ter mais um país socialista (além de Cuba) nos seus “domínios”. Os EUA não contavam, porém, que a população manteria seu apoio às plataformas políticas da Unidade Popular e ao presidente. De maneira que todas as tentativas “democráticas” para depor o governo de Allende fracassaram. Seu governo foi fortemente atacado e ridicularizado pelos meios de comunicação, de propriedade dos seus opositores, mas Allende respeitou a liberdade de imprensa e de expressão. Ao invés de impedí-los de se expressar e publicar as propagandas anticomunistas buscou fortalecer ideológica e psicologicamente o proletariado e o campesinato, isto é, sua base de apoio político. Em setembro de 1972, uma greve de proprietários de caminhões conflagrada pela Confederación Nacional del Transporte, então presidida por León Vilarín, um dos líderes do grupo paramilitar Patria y Libertad parou o país, impedindo o transporte da safra agrícola de 1972/73. A CIA teria gasto 12 milhões de dólares financiando a greve dos proprietários de caminhões. Mesmo com o desabastecimento de alimentos o governo não fez uso da violência para decidir a questão.

Allende defendia a chamada "via chilena para o socialismo", ou seja, uma transição pacífica do capitalismo ao socialismo, com respeito à Constituição Chilena, aos direitos constituídos e sem o uso de força ou violência. Em 29 de junho de 1973, grupos paramilitares e parte do exército chileno ensaiaram um golpe para derrubar o governo, mas a tentativa fracassou. Na ocasião, o Chefe das Forças Armadas chilenas, o general Carlos Prats, solicitou que fosse decretado estado de sítio no país, mas o pedido foi negada pelo Congresso Nacional, por 51 votos a 82. Os partidários do governo saíram as ruas manifestar apoio ao presidente e pedir: "a cerrar, a cerrar, el Congresso Nacional…". Allende, porém, respondeu: — “Faremos as mudanças revolucionárias em pluralismo, democracia e liberdade. Isso não significa tolerância com antidemocratas, nem tolerância com os subversivos, nem tolerância com os fascistas, camaradas! Mas vocês devem entender qual é a real posição deste governo. Não vou, porque seria absurdo, fechar o Congresso. Não o farei. Já disse eu repito. Mas caso necessário, enviarei um projeto de lei de plebiscito para que o povo resolva esta questão”.



No dia 11 de setembro de 1973, perto das 7h da manhã Allende se dirigiu ao La Moneda (sede do governo chileno) como fazia todos os dias. Contudo, antes das 8h seu gabinete foi informado, por uma Junta Militar dirigida pelo general Augusto Pinochet, de que tropas do exército já haviam cercado o Palácio e ele deveria entregar o cargo e desocupar o palácio presidencial, ou seria atacado por tropas de ar e terra. Allende respondeu que permaneceria no cargo e que se quisessem destituí-lo teriam que empregar a força. As 9h55 chegaram os primeiros tanques do exército chileno, os franco-atiradores leais ao governo os enfrentam, enquanto o Presidente decidia fazer um último pronunciamento ao povo:

"Pagarei com minha vida a lealdade do povo. E os digo que tenho a certeza de que a semente que entregaremos à consciência de milhares e milhares de chilenos não podera ser cegada definitivamente. Trabalhadores de minha Pátria! Tenho fé no Chile e em seu destino. Superarão outros homens nesse momento cinza e amargo onde a traição pretende se impor. Sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor." Salvador Allende, 11 de setembro de 1973

Enquanto as tropas militares cercavam o Palácio, os marines norte-americanos permaneciam de prontidão, no limite das águas territoriais chilenas. Se houvesse resistência armada ao golpe de estado, sobretudo do povo, o plano era invadir o Chile, para "preservar a vida de cidadãos norte-americanos". Ou seja, se preciso fosse os soldados estrangeiros iriam intervir e reprimir o povo chileno em seu próprio país para garantir os interesses dos EUA.


Por volta das 11h52 min, aviões da Força Aérea Chilena bombardearam La Moneda, mesmo assim, Allende e seus partidários não se renderam. Segundo testemunhos de exilados chilenos, os soldados norte-americanos participaram ativamente desse ataque aéreo. Às 14h palácio presidencial foi tomado pelo exército. Segundo os militares, Allende teria se suicidado pouco antes da invasão, mas para muitos de seus compatriotas o presidente chileno foi sumariamente executado.

No dia 11 de setembro de 1973, os EUA ajudaram a derrubar o presidente eleito pelo voto direto, Salvador Allende e a revogar o estado democrático de direito no Chile. Às 18 h do mesmo dia, uma Junta Militar revogou os direitos constitucionais do povo chileno e Augusto Pinochet assumiu o governo do país como ditador. A frente da nação perseguiu e matou seus opositores. Antes de completar 1 ano de governo, cerca de 20 mil pessoas haviam sido assassinadas, 30 mil estavam presas e sendo submetidas a torturas selvagens. Estima-se que 50 mil pessoas foram executadas durante o governo de Pinochet, incluindo alguns brasileiros que moravam no Chile à época.

Discurso de Salvador Allende

Discurso da Junta Militar
Em 16 de Outubro de 1998, Pinochet foi detido pela Scotland Yard em Londres, onde fazia tratamento médico. A prisão foi solicitada pela justiça espanhola, que pretendia que o ex-general fosse julgado por crimes e abusos aos Direitos Humanos. Pinochet foi acusado de genocídio, terrorismo e torturas, com base em denúncias de familiares de espanhóis desaparecidos no Chile durante seu governo. Apesar do pedido de extradição, permaneceu 503 dias em Londres esperando o parecer da justiça inglesa, que decidia se ele poderia ser julgado ou não, devido sua idade e seus problemas de saúde. Margaret Thatcher, ex-Primeira Ministra da Inglaterra, veio a público expressar seu apoio ao general-genocida, a quem chamou de "um amigo que ajudou a combater o comunismo". Pouco depois o governo britânico recusou-se a extraditá-lo para a Espanha. Uma junta médica o declarou mentalmente incapacitado para enfrentar um julgamento. Pinochet foi extraditado para o Chile em março de 2000, onde permaneceu até sua morte, ao 91 anos, no dia 3 de Dezembro de 2006. As Forças Armadas chilenas prestaram-lhe as honras de comandante supremo. Ironicamente, Augusto José Ramón Pinochet Ugarte morreu no Dia Internacional dos Direitos Humanos e dos Povos Indígenas.


SOL Y LLUVIA - "Para que nunca mas"

4 de setembro de 2011

O Teatro Mágico - Amanhã... Será?




Se aliança dissipar..

e sentença for só desamor!

a tormenta aumentará!

Quando uma comunidade viva!

Insurrece o valor da Paz,

endurecendo ternamente!



Todo biit, byte , e tera..

será força bruta a navegar,

será nossa herança em terra!



Amanhecerá!

De novo em nós!

Amanhã, será?



Amanhecerá!

De novo em nós!

Amanhã, será?



O "post" é voz que vos libertará.

Descendentes tantos insurgirão.

A arma, o réu, o véu que cairá.

Cravos e Tulipas bombardeiam,

um jardim novo se levantará.

O Jasmim urge do solo sem medo.



O sol reclama no Oriente.

Brada a lua que ilumina.

Rebelando orações e mentes.



Amanhecerá!

De novo em nós!

Amanhã, será?

13 de julho de 2011

PaguÇA-sua-mEnte a respeito da violência contra Mulher

Etiqueta das Lojas Marisa



"Tá pedindo pra ser estuprada", decretou um dos PMs, interrompendo a ronda noturna na boca da passagem de pedestre, sob o Eixão Norte. O outro PM torceu o pescoço, examinou a minissaia da mulher que passava, e achou que, sim, ela devia estar mesmo pedindo. Mas não estava. Maria de Lurdes sentia-se nua dentro da roupa nova, esticava o pano para baixo. Inútil: a saia, comprada na véspera, insistia em ser mini demais, do jeito que Eustáquio queria. "Quem é que entende cabeça de homem?", murmurou Maria de Lurdes, descendo a passagem subterrânea. Pensava no namorado, um servente de pedreiro ciumento de chamar para briga quem mexesse com mulher dele, mas que três sábados antes parara diante da vitrine da Marisa, no Conjunto Nacional, com cara de cachorro vendo galeto assado girar em porta de padaria. Eustáquio precisou de meia-hora e dois chopes no Snob para confessar: o que ele mais queria era ver Maria de Lurdes naquela minissaia da vitrine. "Uai, não era melhor eu sair pelada duma vez?", estranhou Maria de Lurdes, azedando o terceiro chope do namorado. Desde aquele sábado, Eustáquio andava meio distante. Alegava hora-extra na obra, faltava aos passeios no Conjunto e na Torre. Resignada, Maria de Lurdes voltou à loja e comprou a minissaia em três pagamentos, sem juros. Passou meia-hora perguntando ao espelho do quartinho de empregada: "Esta sou eu?". Até ficar convencida de que, sim, aquela era ela, e mais: que estava vestida assim só para o namorado, e que tinha ficado bonita, e que ninguém entende mesmo cabeça de homem. E lá ia Maria de Lurdes, atravessando o Eixão para encontrar o namorado na obra e esticando a roupa. Devia estar quase chegando quando sentiu a faca no pescoço. "Fica quietinha, gostosa", sussurrou o homem. No IML, o legista olhou mais uma vez o corpo nu de Maria de Lurdes, depois a minissaia guardada no saco plástico, e concluiu, assinando o laudo: "Tava pedindo pra ser estuprada..."

Eustáquio só foi saber na segunda-feira. O jornal não informava o nome da morta, encontrada sem documento, mas descrevia o corpo e a minissaia, que ainda trazia pendurada a etiqueta da Marisa, por esquecimento da dona. Não chorou porque nunca lhe ensinaram como, mas passou o resto da tarde encolhido ao lado do poço do elevador do prédio em construção, o capacete nos joelhos. Não houve quem passasse por ele sem comentar: "Tá pedindo pra ser mandado embora..." Não estava. Mas foi assim mesmo.